1.26.2005

Trabalhadores do ABC celebram expansão do PIB

Novas contratações e salários em alta fortalecem "lulismo" da área
Paulo A. Paranaguá
Em São Bernardo do Campo

No quilômetro 25 da via Anchieta, a usina da Volkswagen é a mais imponente, numa estrada que concentra as principais empresas da indústria de São Paulo. A dez quilômetros dali, mais perto da cidade de São Paulo, encontram-se a Ford e a Mercedes Benz-Daimler-Chrysler.

Serginho deixa o imenso edifício da Volkswagen no início da tarde. Naquele dia, a manchete do "Diário do Grande ABC", o principal jornal regional, foi objeto das mais diversas conversas: "São Bernardo ganhou uma Volkswagen inteira em empregos industriais em 2004", o que corresponde a 16 mil contratações, isto é, o equivalente ao número total de empregados da Volkswagen. "O pessoal não tinha avaliado ao certo a amplidão da retomada da atividade", explica Serginho.

Em 2004, o Estado de São Paulo criou mais de 500 mil novas vagas de emprego, ou seja, o quarto das criações de empregos de todo o Brasil.

"Eu trabalho na Metal Leve já faz cinco anos", conta Adilson. "Enquanto nós éramos 1.300 assalariados, foram feitas 700 contratações no ano passado, com objetivo de enfrentar o crescimento da demanda. Pela primeira vez desde que eu trabalho nesta empresa, nós recebemos um aumento salarial real, e não um mero reajuste visando a compensar a defasagem em relação à inflação. Além disso, os acidentes diminuíram, uma vez que a empresa consentiu investimentos maiores em matéria de segurança".

A sede do sindicato dos metalúrgicos do ABC não fica longe da Volkswagen, do outro lado da via Anchieta. Serginho lembra-se do impacto que teve a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva --ele mesmo um antigo torneiro mecânico-- à presidência da República, dois anos atrás.

"As pessoas tinham a expectativa de que haveria uma solução rápida para todos os problemas", recorda. "Muitos acabaram ficando desiludidos depois do primeiro ano de mandato. Agora, o ambiente no refeitório da usina está mais equilibrado, e o pessoal mais ponderado. Lula permaneceu próximo de nós, e ele voltou para nos visitar na Volkswagen".

"As mulheres são mais sensíveis às questões sociais", estima Rose, uma empregada da firma japonesa Makita. Na opinião desta operária, o descontentamento tomou o lugar da euforia inicial. "A insatisfação persiste", prossegue Rose.

"Muitos metalúrgicos são oriundos da pobre região Nordeste ou de outros Estados. Cada um deles precisa ajudar dois ou três membros de sua família, que estão desempregados".

"É preciso investir também na periferia de São Paulo", garante Adilson. "Em Santo André, na favela Lamartine, eu conheço pessoas que contam apenas com o programa social Bolsa-Família para sobreviver. O dinheiro que eles recebem lhes permite ao menos ter o que comer. É um bom começo, mas estamos longe do ideal".

Pedro, um antigo empregado da Brastemp, deixou esta empresa por causa de uma doença. O sindicato negociou para ele uma boa indenização. "Antes, os preços aumentavam até mesmo duas vezes ao mês", diz. "Os casos piores foram os das tarifas de eletricidade e de telefone, logo depois das privatizações. Então, Lula acabou com essas práticas, num momento em que a situação estava se tornando caótica".

Mais quatro anos para Lula

O jornal conservador "O Estado de S.Paulo", com data de 19 de janeiro, destacou a influência dos sindicatos sobre o governo. Além do presidente Lula, dez ministros e cerca de cinqüenta altos-funcionários seriam oriundos do sindicalismo.

O argumento direitista não perturba nem um pouco Isaias, conhecido pelo apelido de "Grilo", um assalariado da Metal Leve que não esconde o seu orgulho do tempo em que ele "tomava algumas cervejas em companhia de Lula".

"Já que os patrões que foram eleitos deputados defendem mesmo os interesses das suas empresas, por que os trabalhadores deveriam se privar de defender os interesses da sua categoria?", pergunta.

O ano de 2005 iniciou-se com um aumento do salário mínimo, para R$ 300 (US$ 108). "Durante muito tempo, nós sonhamos com o dia em que um salário mínimo alcançaria o patamar simbólico equivalente a US$ 100", lembra Serginho. "Agora que nós ultrapassamos este patamar, nós vamos ter de lutar por um salário mínimo de R$ 600 na região".

Na Volkswagen, o piso é de R$ 2.000, informa o trabalhador.

Rose acha que "Lula merece um segundo mandato de quatro anos". Apesar das suas reservas, ela continua acreditando nele. Muito além do apoio ao seu governo, "o 'lulismo' continua sendo muito forte", acrescenta.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
LE MONDE