9.13.2004

"Latino-americanização" é risco para UE, diz economista

Entrevista: ERIK REINERT

Pressão da mão-de-obra barata do Leste pode provar tensão social no bloco europeu, prevê norueguês

CLAUDIA ANTUNES
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO

A ampliação da União Européia, com o ingresso em maio passado de dez países do Leste Europeu e da antiga União Soviética, coloca o bloco diante do risco de um processo de "latino-americanização", conseqüência da pressão para a redução de salários na parte ocidental em razão da maior oferta de mão-de-obra.
Esse risco, um estopim para o aumento da tensão política e social, ocorre graças à "desindustrialização" da Europa do Leste, onde mesmo indústrias de ponta que poderiam tornar-se competitivas não resistiram à transição para o capitalismo.
Tal conclusão é do economista norueguês Erik Reinert, 55, professor da Universidade de Tecnologia de Tallinn, na Estônia, e membro da fundação The Other Canon (O Outro Cânone), da Noruega, que está no Rio para participar da Conferência Brasil e União Européia, promovida pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que começa hoje e vai até sexta-feira.
No estudo que apresentará na conferência, Reinert faz uma "taxinomia" dos tipos de integração econômica. As melhores, diz, são as "simétricas", onde os países entram em condições iguais ou semelhantes de produtividade, industrialização e renda. É o caso do Mercosul, por exemplo.
"Acordos simétricos são sempre bons. Mas os assimétricos são sempre muito difíceis. Por isso hoje o papel de países como China, Brasil e África do Sul é muito importante. Eu digo aos peruanos que é melhor ser colônia do Brasil do que dos EUA", afirmou Reinert, em entrevista à Folha.
Na União Européia ampliada, segundo Reinert, há uma assimetria entre os países do Ocidente e os do Leste. "Foram 14 anos para desindustrializar a Europa Oriental e depois, num golpe, ela foi integrada. Daqui a 30 anos, vamos ver que isso foi um erro. Primeiro, primitivizar toda uma região e, depois, se integrar com ela, com diferença de produtividade, diferença de salários, diferença de estrutura econômica."

Folha - No que consiste o seu trabalho sobre os modelos de integração econômica?
Erik Reinert: Para entendê-lo, tem de se compreender o capitalismo como um modo de produção e não como mercado livre. Para Adam Smith [economista inglês, tido como o pai do liberalismo], o homem é um cachorro que aprendeu a trocar. Já Abraham Lincoln [presidente dos EUA, que viveu de 1809 a 1865] e Karl Marx [1818-1883] têm em comum o fato de afirmarem que o ser humano é um animal capaz de inovar, de criar. Daí vem toda a teoria da inovação. Na teoria neoclássica, não há o papel do Estado moderno, dos empresários e do industrialismo, só o capital, o trabalho e os mercados. Todo o motor de desenvolvimento que está atrás não existe. A partir disso, tentamos ver o porquê de processos de desenvolvimento tão desiguais.

Folha - Que tipos de integração o senhor identificou?
Reinert - Existem várias teorias de integração. O colonialismo é um tipo de integração pelo qual não deveria haver industrialização na periferia. Até agora, a Europa estava integrada de um modo que nós chamamos de listiano, de Friedrich List [economista alemão, 1789-1846], teórico que fundamentou todo o desenvolvimento industrial da Europa continental e depois da China, do Japão e até mesmo do Brasil.List dizia que primeiro os países têm de se industrializar para depois, quando têm uma vantagem comparativa, se integrarem. E depois, quando todos chegam a esse nível, há o comércio mundial. Ele era um grande protecionista, mas, ao mesmo tempo, defendia o livre mercado. Isso se chama comércio livre em áreas simétricas. Até agora, foi assim a integração da União Européia. Desde a Segunda Guerra, o processo caminhou lentamente. Havia a idéia do protecionismo para permitir a criação de indústrias-chave em todos os países. Com a ampliação, surgirão novos problemas, que chamo de "latino-americanização" da Europa.
Folha - O que é isso?
Reinert - List disse que toda a América Latina deveria se integrar. O problema é que ela passou de um mercado pequeno muito protegido ao mercado mundial, sem a etapa intermediária de integração regional, o que destruiu a indústria local. Quando se integra um país relativamente avançado a um relativamente atrasado, a primeira indústria que morre é a mais avançada do país atrasado.

Folha - É o que aconteceu na Europa?
Reinert - É o que está acontecendo em parte da "nova Europa" desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, quando veio, de repente, o comércio livre. Toda a indústria da Europa Oriental morre e há uma primitivização, da economia. Muita gente volta para o campo e os salários baixam. Muitas das indústrias que morreram eram as mais avançadas. O império soviético era muito especializado e essa divisão de trabalho acabou de um dia para o outro, com a abertura.

Folha - Quais as conseqüências disso agora?
Reinert - Foram 14 anos para desindustrializar a Europa Oriental e depois, num golpe, ela foi integrada. Daqui a 30 anos, vamos ver que isso foi um erro. Primeiro, primitivizar toda uma região e, depois, se integrar com ela, com diferença de produtividade, diferença de salários, diferença de estrutura econômica. Em alguns casos, como Hungria, República Tcheca, Eslovênia, a coisa está indo bem. Mas, quanto mais para a periferia, pior é.

Folha - Mas o argumento é que a indústria do Leste não era competitiva e não tinha como ser preservada.
Reinert - Uma indústria pouco eficiente não se mata. Uma indústria pouco eficiente se melhora. É claro que havia coisas impossíveis de recuperar, mas não se poderia acabar com tudo, como o maquinário que se produzia na República Tcheca e na Alemanha Oriental, por exemplo.

Folha - Quais são as conseqüências da ampliação da UE no longo prazo?
Reinert - Primeiro, o custo. O custo total para integrar toda a Europa Oriental é de 1,25 trilhão de euros. É uma cifra exorbitante. O projeto europeu é muito idealista, mas demasiado caro.

Folha - Há risco de tensão social?
Reinert - Existem duas possibilidades: a Europa Ocidental não deixa a população do Leste entrar, impedindo-a de trabalhar no Ocidente, ou baixa os salários. Já neste verão há uma pressão enorme, principalmente na Alemanha, para baixar os salários. Há uma pressão das empresas para que as pessoas passem a trabalhar 40 horas ganhando o mesmo que ganham pelas atuais 35 horas. Se não aceitarem, dizem, vão buscar trabalhadores na Hungria, na Polônia. O custo é a queda salarial em toda Europa e o desemprego no Leste.Em todo o mundo os salários estão caindo. O quadro se parece muito com os anos 30. A seqüência é uma explosão da produtividade e crise financeira. É possível que o segundo período de globalização possa acabar com todo mundo sendo protecionista.

Folha - Quais são os outros tipos de integração que o senhor identificou?
Reinert - Há a integração simétrica periférica, como o Mercosul, o Pacto Andino e o projeto da Alca [Área de Livre Comércio da América do Sul], que não deu certo. É uma estratégia boa, em que os dois lados ganham. No Pacto Andino o problema é que, por serem economias pequenas, não existem muitas coisas para trocar entre eles. Existe ainda a integração assimétrica colonial, um tipo que está renascendo, por exemplo, na África, que está sendo dividida entre EUA e Europa.

Folha - As integrações assimétricas podem ser boas?
Reinert -Há um caso, um tipo de integração que se chama vôo de ganso, na qual o primeiro ganso conduz os demais. O Japão, por exemplo, começa a fabricar um produto de ponta. Depois, esse produto passa a ser feito na Coréia, depois em Taiwan, depois na Malásia e na Tailândia. Isso tem funcionado, porque abre espaço para todos se desenvolverem.

Folha - Qual a perspectiva das negociações entre Mercosul e União Européia?
Reinert - Eu acho que vai ser difícil [fechar um acordo]. Há uma competição muito grande entre os EUA e a Europa para fazer acordos com a periferia. O Brasil está numa situação muito mais avançada do que os outros países da América Latina, mas tem de ter cuidado para não primitivizar suas exportações.

Folha - E a Alca?
Reinert - Fazer acordos da periferia com o centro é sempre a pior opção. Por isso, o papel de China, Brasil e África do Sul é muito importante. Eu digo aos peruanos que é melhor ser colônia do Brasil do que dos EUA.
FSP